(Publicado no caderno Correio das Artes, do Jornal A União, jun. 2011)
A ênfase de Adriana Calcanhotto em declarar sua condição de compositora desassociada de um gênero musical único desperta um olhar curioso sobre os “não-sambas” que compõem seu novo disco[1]. O nascimento deste álbum parece ter sido uma surpresa maior para a artista do que para o público, embora ela tenha, assim como outros de sua geração, os canônicos Ismael Silva, Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues como grandes referências. Outra fonte determinante, que a cantora faz sempre questão de destacar, é a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, aquela mesma que, junto com os compositores da Estácio de Sá, contribuiu para a consolidação do samba enquanto gênero musical, além de projetá-lo para o resto do país e do mundo como o ritmo genuinamente brasileiro. Se há, de fato, como afirma a própria Adriana, uma ligação tão forte com a escola, que chega a transcender as composições e seus autores tocando o campo do imaginário, então em algum momento essa relação iria se precipitar.
A ênfase de Adriana Calcanhotto em declarar sua condição de compositora desassociada de um gênero musical único desperta um olhar curioso sobre os “não-sambas” que compõem seu novo disco[1]. O nascimento deste álbum parece ter sido uma surpresa maior para a artista do que para o público, embora ela tenha, assim como outros de sua geração, os canônicos Ismael Silva, Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues como grandes referências. Outra fonte determinante, que a cantora faz sempre questão de destacar, é a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, aquela mesma que, junto com os compositores da Estácio de Sá, contribuiu para a consolidação do samba enquanto gênero musical, além de projetá-lo para o resto do país e do mundo como o ritmo genuinamente brasileiro. Se há, de fato, como afirma a própria Adriana, uma ligação tão forte com a escola, que chega a transcender as composições e seus autores tocando o campo do imaginário, então em algum momento essa relação iria se precipitar.
A expressão “o micróbio do samba”, que dá nome ao disco e aparece citada no encarte do CD, é de Lupicínio Rodrigues, conterrâneo de Adriana: “desde pequeno trazia no sangue o micróbio do samba [...] que cresceu comigo e não quer me abandonar”. A compositora afirma que também ela é “infectada”, ainda que não seja sambista e nem tenha pretensões de o ser. E quanto a isso não há dúvidas: podemos encontrar, ao longo de sua carreira, manifestações desse micróbio.
O primeiro disco, “Enguiço”[2], traz registros de Adriana para a canção “Disseram que eu voltei americanizada” – um clássico de Luís Peixoto e Vicente Paiva, eternizado na voz de Carmem Miranda – e “Nunca”, de Lupicínio, além de uma canção de Gilson de Souza, “Orgulho de um sambista”, cujo título dispensa comentários.
Em “Maritmo”[3], os arranjos de “Vamos comer Caetano”, oriundos de samples de gravações de Caetano Veloso, aproximam-se do samba-de-roda com direito ao prato-e-faca do Recôncavo baiano, utensílios que a compositora toca ao vivo no show “Público”[4], do ano seguinte.
Mais recentemente, em “Partimpim, o show”[5], Adriana tanto utiliza o prato (dessa vez com uma colher, já que a canção, uma tradução de Augusto de Campos para texto de Lewis Carrol, trata de uma sopa deliciosa) na “Canção da falsa tartaruga”, como toca também, no final da canção “Lig-lig-lig-lé”, um surdo da Mangueira, decorado, assim como as cores que compõem o layout do disco ‘Partimpim”, em verde e rosa. A devoção pela escola é tanta que , no making-off do DVD, ela brinca ao afirmar a possibilidade de ter inventado o show só para poder tocar o surdo. No “Partimpim 2” [6], o tom festivo do CD é aberto com o “Baile Particundum”, onde pode-se tudo no carnaval, inclusive inserir guitarras, samples, piano, surdo e apito, juntos.
Em “O micróbio”, o samba aparece caracterizado, mas – não podemos esquecer – são sambas a la Adriana Calcanhotto. O que parece legitimar a pertinência das músicas ao gênero é o conjunto instrumental que arranja as faixas. Instrumentos característicos como o cavaquinho, a cuíca e até uma caixinha de fósforos conferem ou inserem as canções na categoria de um samba modernizado – num primeiro momento até a contragosto de Adriana, pela inserção da guitarra elétrica de Rodrigo Amarante. Mas há outro elemento que sobressai nas faixas, em especial na que abre o CD, e vai buscar referência na semba e noutras danças africanas das quais se originou o ritmo: é o batuque, na percussão bem marcada de Domenico Lancellotti. Outras passagens do disco remetem à origem do ritmo, desdobrado em diversas modalidades no seu percurso histórico. O samba-de-roda está de volta na canção “Você disse não lembrar”, com o tradicional prato-e-faca tocado por Moreno Veloso, e palmas funcionando como percussão, ambos à maneira baiana. Faixas como “Tão chic” e “Deixa, gueixa” ensaiam a relação com a marcha, gênero que, quando da chegada do samba ao Rio de Janeiro, se incorporou e contribuiu para a constituição do samba-de-raiz como concebemos hoje. “Deixa, gueixa” chega mesmo a recordar os “Partimpim”, pelo estilo, pela temática e também pelas brincadeiras a que os músicos se deram a liberdade de fazer: Adriana tira som de uma bandeja de chá como representação do que está na letra da canção (“deixa, gueixa, deixa/deixa eu te fazer o chá/deixa, gueixa, deixa/deixa eu lavar a louça”), se valendo da mesma lógica da “Canção da falsa tartaruga” (“quem não diz: – opa! Que bela sopa!/sopa das sopas, que bela sopa!”).
Mas o que há de diferente nos “não-sambas” de Adriana Calcanhotto? No samba tradicional, o mais freqüente é encontrarmos nas composições acordes simples/naturais e seus relativos, que geram conjuntos harmônicos de fácil aceitação sonora. No entanto, Adriana é da geração pós-Bossa Nova e se debruça sobre acordes dissonantes que criam, por vezes, um estranhamento para o ouvinte desavisado. Ela tem o que acreditamos serem seus acordes favoritos, que, para um público mais perceptivo, já se tornaram marca registrada, compondo a identidade da compositora. São acordes diminutos, com quintas, sextas, sétimas e nonas aumentadas ou diminuídas, bemóis, sustenidos, enfim, recursos técnicos que enriquecem as composições. Sim, ela também faz uso de sequências “óbvias”, no sentido de que já bastante conhecidas e utilizadas, mas dá sua cara a esses óbvios. Como? É que Adriana tem um suingue todo próprio, que se revela na “batida” do violão, traço que distancia sua música dos sambas tradicionais, em geral compostos no formato 2/4.
A singularidade com que Adriana forja seus arranjos de “não-sambas”, partindo de uma identidade percussiva através do uso de instrumentos consagrados pelo gênero, mas inseridos em diferentes contextos, misturados a novos instrumentos (diga-se: qualquer coisa que pode ser geradora de novos ritmos e sons), contamina a construção das letras e vice-versa. A tradicional “dor-de-cotovelo”, presente nos sambas de compositores já mencionados aqui, dá lugar à determinação com que se declara, ironicamente, a intenção de viver um novo amor, de superar a recusa: “Pode se remoer/se penitenciar/ eu encontrei alguém/que só pensa em beijar”, “A sua nova namorada pode ser só sua/mas ela não samba [...]/já reparô?” “Eu não sou mais quem/você deixou, amor/ vou à lapa decotada/viro todas/beijo bem”. Esta última canção, aliás, é exemplar do trato poético com que Adriana elabora suas letras: a metáfora da Lapa/mulher decotada, numa alusão aos famosos arcos do bairro da Lapa (aqueduto construído na época do Brasil colonial), aproxima mulher e lugar, que se confundem ambos sedutores e boêmios, reforçando a mesma atitude autoafirmativa. Essa mulher “renovada” também dialoga com a ironia de “Com açúcar, com afeto”, de Chico Buarque, em “Mais perfumado”: “Quando repara no meu cabelo/quando pergunta do meu passado/quando precisa comprar cigarro/ porque acordado de um pesadelo/ quando sai cedo, terno escovado/ e volta como quem foi linchado/ele acredita que me engano/pensa que sabe mentir o homem que eu amo”.
A postura irônica de seus sambas chama a atenção ainda para uma contradição que reside na própria estrutura do gênero: a convivência da dor amorosa ou existencial com o ritmo festivo. A canção de abertura do CD, “Eu vivo a sorrir”, resgata de Cartola – “A sorrir/ eu pretendo levar a vida/pois chorando/eu vi a mocidade/perdida” (“O sol nascerá”) e “Quem me vê sorrindo/pensa que estou alegre/ o meu sorriso/ é por consolação” (“Quem me vê sorrindo”) – o sentido mais uma vez atualizado: “[...] eu vivo a sorrir/pro caso de você virar a esquina/[...] pro caso de o acaso estar num bom dia/pro caso do destino haver reservado a alegria/e o meu fado estar fadado a ser sua sina”. O jogo de palavras e aproximações sonoras – o caso que está dentro do (a)caso, ligado a fado (fadado) pela rima toante, que também une dia a alegria – não está aí posto por acaso. Brincam com a ideia do destino e do acaso, do fado e do samba nivelados em sua singularidade, como matéria que são de vida e canção: “pro caso de o acaso estar inspirado/e emaranhar, por capricho, tempo e espaço/cruzando as nossas linhas soltas num laço/eu vivo a sorrir, eu vivo a sorrir/ vai que se materializa o meu sonho dourado/vai que me espera com boas notícias o inesperado”.
O diálogo criativo e inventivo com um repertório vasto e diverso da tradição da música brasileira, o nível de elaboração poética de suas letras e arranjos, a liberdade de ser apenas Adriana Calcanhotto, estruturam o seu método de criação ao longo desses anos, a cada trabalho. Método que, se de um lado reflete sofisticação artística e alta-cultura, como diz Augusto de Campos[7], de outro concentra o viço gerado pela coragem de experimentar, aquilo que Adriana ousou chamar um dia de precariedade, de acaso[8], motivos suficientes para ouvirmos “O micróbio do samba”.
Nayara Brito
(Cantora, instrumentista, estudante de Jornalismo da UEPB)
Janaína Milanez
(Doutoranda do PPGL da UFPB)
[1] CALCANHOTTO, Adriana. O micróbio do samba. [CD] Rio de Janeiro: Minha Música/Sony Music, 2011.
[2] ____. Enguiço. [CD] Rio de Janeiro: Sony Music, 1990.
[4] ____. Público. [DVD] Rio de Janeiro: Sony/BMG, 2001.
[5] ____. Partimpim, o show. [DVD] Rio de Janeiro: Sony/BMG, 2005.
[6] ____. Adriana Partimpim 2: É show. [DVD] Rio de Janeiro: Sony/BMG, 2009.
[7] CAMPOS, Augusto de. Partimpim dois é show. Disponível em: < http://www.adrianapartimpim.com.br/dois_show /index.html >. Acesso em: 15 de maio de 2011.
[8] PALUMBO, Patrícia. Entrevista de Adriana Calcanhotto. Vozes do Brasil 2. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2007.