Noite em casa de Analice, sábado de chuva. Difícil sair de casa e a chuva é o menor dos motivos. Tem dias que a gente se sente. Mas como resistir e não se lançar à aventura e ao prazer? No caminho, as notícias se desfazem em fios d’água no para-brisa, como quem partiu ou morreu. Tempo, tempo, tempo, tempo. Dois lances de escadas unem a “flor” do interfone ao abraço em cujo calor vamos nos perder. A casa de Ana é como ela, seduz pelo que é dentro (desfruta do meu corpo, como se o meu corpo fosse a sua casa, ai!). Casa de sala ampla onde o olhar de anfitriã acomoda os olhares. Alguns novos, países de sedução a serem descobertos; outros familiares, a serem reinventados. Uns que até já se amaram, mas o mote é mesmo o da amizade. (É na soma do seu olhar, que eu vou me conhecer inteiro.) E a varanda, ai a varanda... Espaço diminuto que nos obriga ao toque principiado pelos olhares na sala. Riso franco de varandas, silêncios e confidências. Oi coração, não dá pra falar muito não. A certa altura, entre telas, performances e acordes de canções de Chico (o Buarque, porque a noite também era dele), songes et mensonges, vinhos e perfumes, canção quase sussurrada que somente eu, que andava pobre, tão pobre de carinho, ouvi. Na noite de sábado chuvoso, o motivo do encontro, “apenas” ouvir, cantar, tocar Chico, assume o lugar de pretexto, para sobrar a celebração pela vida, pelo sábado, aquele dia.