Better, better, βeta, Beta, Bethânia[1]
(Publicado no caderno Correio das Artes, do Jornal A União, mar. 2011)
No livro Verdade tropical, Caetano Veloso afirma ter sido influenciado por Bethânia, de forma determinante, na construção de seu perfil profissional e mesmo do seu estilo de compor canções, cantá-las e pensar sobre elas[2]. Embora mais jovem, Bethânia se projeta como profissional antes de Caetano e dos outros baianos, especialmente por conta de sua participação no espetáculo Opinião, grande sucesso no Rio de Janeiro de 64, em que substitui a cantora Nara Leão. No entanto, para além do fato da precoce profissionalização, a própria postura de Bethânia como artista completa que é exerceu influência não somente sobre o irmão, mas sobre todo o Tropicalismo, em especial na sua origem, quando chama a atenção para o significado do movimento Iê-iê-iê – em torno do Programa Jovem Guarda, exibido na TV Record entre 1965 e 1968 – e de Roberto Carlos. Mesmo mantendo-se distante da militância tropicalista, e, portanto, dentro do seu próprio “centro”, Bethânia interfere nos rumos do movimento com o seu olhar para fora, conectado às expressões artísticas contemporâneas que a significavam. É essa postura que observamos de novo revivida e reinventada no último trabalho, “Amor, festa e devoção, ao vivo”[3], e ao longo de toda sua carreira, mais especialmente na última década, desde o álbum “Maricotinha, ao vivo”[4].
No livro Verdade tropical, Caetano Veloso afirma ter sido influenciado por Bethânia, de forma determinante, na construção de seu perfil profissional e mesmo do seu estilo de compor canções, cantá-las e pensar sobre elas[2]. Embora mais jovem, Bethânia se projeta como profissional antes de Caetano e dos outros baianos, especialmente por conta de sua participação no espetáculo Opinião, grande sucesso no Rio de Janeiro de 64, em que substitui a cantora Nara Leão. No entanto, para além do fato da precoce profissionalização, a própria postura de Bethânia como artista completa que é exerceu influência não somente sobre o irmão, mas sobre todo o Tropicalismo, em especial na sua origem, quando chama a atenção para o significado do movimento Iê-iê-iê – em torno do Programa Jovem Guarda, exibido na TV Record entre 1965 e 1968 – e de Roberto Carlos. Mesmo mantendo-se distante da militância tropicalista, e, portanto, dentro do seu próprio “centro”, Bethânia interfere nos rumos do movimento com o seu olhar para fora, conectado às expressões artísticas contemporâneas que a significavam. É essa postura que observamos de novo revivida e reinventada no último trabalho, “Amor, festa e devoção, ao vivo”[3], e ao longo de toda sua carreira, mais especialmente na última década, desde o álbum “Maricotinha, ao vivo”[4].
O que esses dois álbuns têm em comum? Obviamente, o fato de serem lançados ao vivo e pela mesma gravadora, a excepcional Biscoito Fino. Mas já aqui podemos tecer algumas considerações. Primeiro, não se pode negar a força do palco para uma artista visceralmente ligada ao teatro como Maria Bethânia. Segundo, unir esta característica ao trabalho de uma gravadora, dirigida também por artistas, e que prima pela excelência sonora e plástica de suas produções, só pode resultar no sucesso que foi “Maricotinha”. A “massa” já come do biscoito fino – materializado em artesanais caixinhas de papelão – que a gravadora fabrica, e Bethânia é, sem dúvida, a estrela do elenco.
Claro que precisamos relativizar, aqui, o significado do termo “massa”, porque de sua recusa, ou melhor, da maneira independente – e por que não dizer antropofágica, para usar uma expressão mais cara ao Tropicalismo – com que a artista o encara, talvez proceda a vitalidade de Bethânia. Em “Amor, festa, devoção”, diferentemente de “Maricotinha”, show entremeado por muitos textos, a cantora recita apenas um poema de Waly Salomão, um dos grandes nomes da contracultura no Brasil a partir da década de 70, letrista de “Mel” e “Talismã”. O poema de que falamos é “Olho de lince”[5]. Ele aparece após duas canções: “Santa Bárbara” – santa protetora dos raios e trovões –, de Roque Ferreira, que funciona como uma espécie de benção do fogo para o início do show; e “Vida”, de Chico Buarque, um elogio ao calor dos palcos, que marca o tom passional que sempre envolveu a personalidade de Bethânia, verdadeira filha de Iansã – orixá dos ventos e raios –, irrequieta, autoritária, sensual, de temperamento forte e impetuoso. Os signos do fogo, aliás, perpassam todo o CD: “luz que alumia”, “luz, quero luz”, “fósforo que acende o fogo”, “sou iluminada, eu sou”, “luziê lumiô”, “vou queimar a lamparina”, para ficarmos apenas nas primeiras canções.
Bethânia recita “Olho de lince”, mudando o gênero dos adjetivos, “quem fala que sou esquisita hermética/ é porque não dou sopa estou sempre elétrica”, manifestando assim sua habilidade de reunir diferentes poemas, canções, fragmentos em torno de um repertório coeso, ainda que sua unidade concentre-se no próprio modus operandi da cantora, que consiste em apropriar-se dos textos que interpreta, sem preconceito: “quando quero saber o que ocorre à minha volta/ ligo a tomada abro a janela escancaro a porta”. Portanto, em “Amor, festa, devoção”, Bethânia se renova e renova canções de três dos seus maiores compositores, Caetano, Chico e Gonzaguinha; de clássicos como Lamartine Babo, Silvio Caldas e Herivelto Martins; de compositores contemporâneos, mas com carreira já consolidada, como Chico César, Moska, Adriana Calcanhotto, Vanessa da Mata e Vander Lee; de dois responsáveis por boa parte dos sambas do CD, expressão de uma brasilidade mística e festiva que marca os últimos trabalhos de Bethânia, Paulo César Pinheiro (parceiro de Baden Powel, foi casado com Clara Nunes e compôs mais de 1.500 letras de sambas e canções) e Roque Ferreira (baiano do Recôncavo, lançado por Clara, começou com samba de roda). Estamos deixando de fora nomes como Vinícius de Moraes, Arnaldo Antunes e Pedro Abrunhosa, compositor português, autor de uma das canções mais belas do CD, “Balada de Gisberta”.
Na urdidura de “Amor, festa, devoção”, Bethânia exibe a coerência do seu trabalho ancorado, inicialmente, no processo de composição do repertório, que se traduz numa interpretação que vem da alma, afinal estamos falando de Maria Bethânia: “tudo sentir total/ é chave de ouro do meu jogo/ é fósforo que acende o fogo/ da minha mais alta razão/ e na sequência de diferentes naipes/ quem fala de mim tem paixão”. E para sermos tocados por ela, precisamos saber ouvir, tomar posse do olho de lince.
[1] O título do artigo refere-se à letra da canção “Maria Bethânia”, composta por Caetano, quando do seu exílio em Londres. Ali, Bethânia já era uma das cantoras mais populares do Brasil: “Maria Bethânia, please send me a letter/ I wish to know things are getting better/ Better, better, Beta, Beta, Bethânia”. Caetano Veloso. Londres: Polygram, 1971.
[2] VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 55
[3] Amor, festa, devoção. São Paulo: Biscoito Fino, 2010. Gravado ao vivo no Vivo Rio, Rio de Janeiro, em março de 2010.
[4] Maricotinha. São Paulo: Biscoito Fino, 2002. Gravado ao vivo no Direct Tv Hall, São Paulo, em dezembro de 2001.
[5] SALOMÃO, Waly. Gigolô de bibelôs. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. p. 11
