terça-feira, 7 de junho de 2011

Letra do Micróbio

Beijo sem
para Marisa Monte

eu não sou mais quem
você deixou, amor
vou à lapa
decotada
viro todas
beijo bem
madrugada
sou da lira
manhãzinha
de ninguém
noite alta é meu dia
e a orgia é meu bem

eu não sou mais quem
você deixou de ver
vou à lapa
perfumada
viro outras
beijo sem
madrugada
sou da lira
manhãzinha
de ninguém
noite alta é meu dia
e a orgia o meu bem
eu não sou mais
quem

Capa do Micróbio

sábado, 4 de junho de 2011

Em breve, o "micróbio do samba"

Texto meu e de Nara Belmonte (no Correio das Artes) sobre novo álbum de não-sambas de Adriana Calcanhotto.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sonora



A nota que teima
em não combinar
soa
na afinação
[sua rebentação]
como o sino de um cortejo que se prolonga
como a chuva de janeiro anacrônica
como o agridoce do teu amor que não termina.


(Escrito em fev/2010. Musicado, um ano depois, por Nara Belmonte)

Fogo, de "Encanteria"

Better, better, βeta, Beta, Bethânia


Better, better, βeta, Beta, Bethânia[1]

(Publicado no caderno Correio das Artes, do Jornal A União, mar. 2011)


No livro Verdade tropical, Caetano Veloso afirma ter sido influenciado por Bethânia, de forma determinante, na construção de seu perfil profissional e mesmo do seu estilo de compor canções, cantá-las e pensar sobre elas[2]. Embora mais jovem, Bethânia se projeta como profissional antes de Caetano e dos outros baianos, especialmente por conta de sua participação no espetáculo Opinião, grande sucesso no Rio de Janeiro de 64, em que substitui a cantora Nara Leão. No entanto, para além do fato da precoce profissionalização, a própria postura de Bethânia como artista completa que é exerceu influência não somente sobre o irmão, mas sobre todo o Tropicalismo, em especial na sua origem, quando chama a atenção para o significado do movimento Iê-iê-iê – em torno do Programa Jovem Guarda, exibido na TV Record entre 1965 e 1968 – e de Roberto Carlos. Mesmo mantendo-se distante da militância tropicalista, e, portanto, dentro do seu próprio “centro”, Bethânia interfere nos rumos do movimento com o seu olhar para fora, conectado às expressões artísticas contemporâneas que a significavam. É essa postura que observamos de novo revivida e reinventada no último trabalho, “Amor, festa e devoção, ao vivo”[3], e ao longo de toda sua carreira, mais especialmente na última década, desde o álbum “Maricotinha, ao vivo”[4].
O que esses dois álbuns têm em comum? Obviamente, o fato de serem lançados ao vivo e pela mesma gravadora, a excepcional Biscoito Fino. Mas já aqui podemos tecer algumas considerações. Primeiro, não se pode negar a força do palco para uma artista visceralmente ligada ao teatro como Maria Bethânia. Segundo, unir esta característica ao trabalho de uma gravadora, dirigida também por artistas, e que prima pela excelência sonora e plástica de suas produções, só pode resultar no sucesso que foi “Maricotinha”. A “massa” já come do biscoito fino – materializado em artesanais caixinhas de papelão – que a gravadora fabrica, e Bethânia é, sem dúvida, a estrela do elenco.
Claro que precisamos relativizar, aqui, o significado do termo “massa”, porque de sua recusa, ou melhor, da maneira independente – e por que não dizer antropofágica, para usar uma expressão mais cara ao Tropicalismo – com que a artista o encara, talvez proceda a vitalidade de Bethânia. Em “Amor, festa, devoção”, diferentemente de “Maricotinha”, show entremeado por muitos textos, a cantora recita apenas um poema de Waly Salomão, um dos grandes nomes da contracultura no Brasil a partir da década de 70, letrista de “Mel” e “Talismã”. O poema de que falamos é “Olho de lince”[5]. Ele aparece após duas canções: “Santa Bárbara” – santa protetora dos raios e trovões –, de Roque Ferreira, que funciona como uma espécie de benção do fogo para o início do show; e “Vida”, de Chico Buarque, um elogio ao calor dos palcos, que marca o tom passional que sempre envolveu a personalidade de Bethânia, verdadeira filha de Iansã – orixá dos ventos e raios –, irrequieta, autoritária, sensual, de temperamento forte e impetuoso. Os signos do fogo, aliás, perpassam todo o CD: “luz que alumia”, “luz, quero luz”, “fósforo que acende o fogo”, “sou iluminada, eu sou”, “luziê lumiô”, “vou queimar a lamparina”, para ficarmos apenas nas primeiras canções.
Bethânia recita “Olho de lince”, mudando o gênero dos adjetivos, “quem fala que sou esquisita hermética/ é porque não dou sopa estou sempre elétrica”, manifestando assim sua habilidade de reunir diferentes poemas, canções, fragmentos em torno de um repertório coeso, ainda que sua unidade concentre-se no próprio modus operandi da cantora, que consiste em apropriar-se dos textos que interpreta, sem preconceito: “quando quero saber o que ocorre à minha volta/ ligo a tomada abro a janela escancaro a porta”. Portanto, em “Amor, festa, devoção”, Bethânia se renova e renova canções de três dos seus maiores compositores, Caetano, Chico e Gonzaguinha; de clássicos como Lamartine Babo, Silvio Caldas e Herivelto Martins; de compositores contemporâneos, mas com carreira já consolidada, como Chico César, Moska, Adriana Calcanhotto, Vanessa da Mata e Vander Lee; de dois responsáveis por boa parte dos sambas do CD, expressão de uma brasilidade mística e festiva que marca os últimos trabalhos de Bethânia, Paulo César Pinheiro (parceiro de Baden Powel, foi casado com Clara Nunes e compôs mais de 1.500 letras de sambas e canções) e Roque Ferreira (baiano do Recôncavo, lançado por Clara, começou com samba de roda).  Estamos deixando de fora nomes como Vinícius de Moraes, Arnaldo Antunes e Pedro Abrunhosa, compositor português, autor de uma das canções mais belas do CD, “Balada de Gisberta”.   
Na urdidura de “Amor, festa, devoção”, Bethânia exibe a coerência do seu trabalho ancorado, inicialmente, no processo de composição do repertório, que se traduz numa interpretação que vem da alma, afinal estamos falando de Maria Bethânia: “tudo sentir total/ é chave de ouro do meu jogo/ é fósforo que acende o fogo/ da minha mais alta razão/ e na sequência de diferentes naipes/ quem fala de mim tem paixão”. E para sermos tocados por ela, precisamos saber ouvir, tomar posse do olho de lince.      





[1] O título do artigo refere-se à letra da canção “Maria Bethânia”, composta por Caetano, quando do seu exílio em Londres. Ali, Bethânia já era uma das cantoras mais populares do Brasil: “Maria Bethânia, please send me a letter/ I wish to know things are getting better/ Better, better, Beta, Beta, Bethânia”. Caetano Veloso. Londres: Polygram, 1971.
[2] VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 55
[3] Amor, festa, devoção. São Paulo: Biscoito Fino, 2010. Gravado ao vivo no Vivo Rio, Rio de Janeiro, em março de 2010.
[4] Maricotinha. São Paulo: Biscoito Fino, 2002. Gravado ao vivo no Direct Tv Hall, São Paulo, em dezembro de 2001.
[5] SALOMÃO, Waly. Gigolô de bibelôs. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. p. 11

"Mango", faixa de "Délibáb" (cd)


"Délibáb" (dvd)


Délibáb ou uma miragem do Sul


(Publicado no caderno Correio das Artes, do Jornal A União, nov. 2010)

Fiquei surpresa com a notícia do show de Vitor Ramil aqui em João pessoa. A última vez que o tinha visto fora em 2007, em Brasília, no Projeto Mercosul Musical organizado por Paulinho Moska, que propunha o encontro entre músicos brasileiros, argentinos e uruguaios. Na época, Ramil lançava o cd Satolep Sambatown, junto com o percussionista Marcos Suzano. A imagem que eu tinha dele, até então, era a do compositor e intérprete de “Estrela, estrela”, canção belíssima, composta quando tinha apenas 18 anos. Impressionei-me com o samba do cd. Depois do show em Brasília, procurei outras obras do músico e descobri o estranho Ramilonga – a estética do frio, tão distante dos meus ouvidos nordestinos mais acostumados ao som de Suzano, com quem divide também a produção de Satolep Sambatown. Depois de tanto tempo, ver Ramil num sábado de agosto chuvoso, em uma João Pessoa excepcionalmente fria, foi quase uma ilusão do Sul.
Aquele homem cinzento, de cabelos e barbas grisalhos, que quase não sorria, transpôs aos meus olhos e em plena praça um Délibáb de um Sul sem fronteiras: o nosso Sul, do poeta gaúcho João da Cunha Vargas, mas também o Sul argentino do escritor Jorge Luis Borges: “me acotovelo no joelho/ me sento sobre o garrão/ ao pé do fogo de chão/ vou repassando a memória/ e não encontro na história/ quem te inventou chimarrão” (“Chimarrão”, João da Cunha Vargas); “pienso que Le gustaría/ saber que hoy anda su historia/ em uma milonga. El tempo/ es olvido y es memoria” (“Milonga de albornoz”, Jorge Luis Borges).
Entre uma milonga e outra (ora de sabor lírico, ora épico), Ramil compõe a paisagem sulina da memória em Délibáb, seu mais novo trabalho, em que musica poemas de Borges e versos de Vargas: “falam muito no destino/ até nem sei se acredito/ eu fui criado solito/ mas sempre bem prevenido/ índio do queixo torcido/ que se amansou na experiência/ eu vou voltar pra querência/ lugar onde fui parido” (“Deixando o pago”, João da Cunha Vargas). De origem africana (milonga é plural de mulonga, que significa “palavra”, como explica o próprio Ramil em sua Estética do frio), a milonga consiste em uma “música platina de ritmo dolente, cantada com acompanhamento de guitarra ou violão”, muito apropriada, portanto, para o compositor
Que outra, se não essa [forma], escolheria o gaúcho solitário da minha imagem diante daquela fria vastidão de campo e céu? Que outra forma seria tão apropriada à nitidez, aos silêncios, ao vazio? (RAMIL, 2004)
Além das duas primeiras canções (fragmentos transcritos acima), destacam-se “Milonga de los morenos” (JLB), cuja voz divide com o caballero de fina estampa, Caetano Veloso, e “Deixando o pago” (JCV), para citarmos apenas duas. Tarefa difícil (não consigo parar de ouvir “Mango” e “Milonga para los orientales”). Por mais que eu tente recompor aqui os poemas em texto nada dá conta da sonoridade magistral da voz e do violão de Vitor e do violão do músico argentino Carlos Moscardini, que ganham destaque no documentário do DVD, que acompanha o cd. Nele, podemos ver mais de perto este homem “discípulo daqueles para quem, na descrição de Paul Valéry, o tempo não conta; aqueles que se dedicam a uma ética da forma, que leva ao trabalho infinito”. 

A definição para Délibáb aparece no lado esquerdo do encarte do CD cinza escuro de mesmo nome, nas palavras de Ernesto Sábato: “tipo de espelhismo [que] transporta paisagens muito distantes a horizontes quase desérticos, reproduzindo ante os olhos maravilhados do expectador, em dias de calor, o desenvolvimento de cenas distantes”. Trata-se de um fenômeno único nas planícies húngaras, semelhantes às planícies do Sul. Como um reflexo, um fragmento de Satolep (romance de Ramil lançado em 2008, anagrama de Pelotas, sua cidade natal) enfeita o lado direito do mesmo encarte: “Esta locomotiva e este vagão que vocês vêem, tão nítidos, a correr neste horizonte desértico, não estão aqui onde parecem estar, mas a pelo menos uns cem quilômetros de distância. Acontece em dias de muito calor”.
Cd nas mãos, vão se consubstanciando, aos nossos olhos, camadas de significação de uma estética do frio. Imagem e palavra. Poesia e prosa. Literatura e canção. Jorge Luis Borges e João da Cunha Vargas. Erudito e popular. Argentina e Brasil (Buenos Aires também pode ser Pelotas). Mas que Brasil?

A estética do frio

A participação do compositor no evento literário Agosto das Letras foi importante para que eu refizesse o caminho percorrido por ele de Ramilonga até Délibáb e finalmente entendesse a estética do frio.   
Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

(“Ramilonga”, Ramilonga, a estética do frio, 1997)

O tema da mesa era “Literatura e adaptações”. Ramil pouco discute a questão quando fala sobre a versão que fez para a música “Gotta serve somebody”, de Bob Dylan, mas toca num ponto fundamental: no caso da canção de Dylan, a ideia era recriar a sensação com outras palavras e expressões para que fosse significativa aos receptores e, principalmente, para o compositor. Nem diabo nem deus: Ramil prefere servir-se a si mesmo.
Você pode ser rei no país do futebol
Pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol
Você pode ser um mago e vender livros de montão
Pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão

Mas um dia vai servir a alguém, é
Um dia vai servir a alguém
Seja ao diabo
Ou seja a Deus
Um dia você vai servir a alguém
(“Um dia você vai ser vir a alguém”, versão de Ramil para a música “Gotta serve somebody”, de Bob Dylan, Tambong, 2000)

Este pode ser um caminho para entendermos a sua Estética do frio. O livro foi resultado de uma conferência apresentada em junho de 2003, em Genebra, Suíça, como parte da programação Porto Alegre, um autre Brésil. Para chegar naquilo que diz não ser um projeto estético formal, Ramil descreve uma situação vivenciada nos primeiros anos de artista, no Rio de Janeiro, cidade-metáfora-clichê do Brasil tropical. Em um junho muito quente, o compositor assistia seminu, tomando seu chimarrão, à transmissão de um carnaval fora de época nordestino, em um telejornal local. Em seguida, o mesmo telejornal mostra a chegada de um inverno rigoroso no Rio Grande do Sul, digno de “clima europeu”. Ramil descreve o que se seguiu:        
Aquilo tudo causou em mim um forte estranhamento. Eu me senti isolado, distante. Não do Rio Grande do Sul, que estava mesmo muito longe dali, mas distante de Copacabana, do Rio de Janeiro, do centro do país. Pela primeira vez eu me sentia um estranho, um estrangeiro em meu próprio território nacional; diferente, separado do Brasil. (RAMIL, 2004)  

Deslocado, o compositor está ciente da pouca contribuição do gaúcho para a constituição de uma determinada brasilidade, muito mais próximo que está dos hermanos vizinhos argentinos e uruguaios. Por este viés, como artista, reclama ainda das fronteiras menos diluídas entre tradição e modernidade para os compositores do Sul, por muitas vezes saturados de uma visão regionalista estereotipada:
Enquanto os nordestinos vinham há anos se renovando e renovando a própria música brasileira graças à sua sem-cerimônia para com os próprios mitos, à sua capacidade de manter viva a tradição popular, os rio-grandenses, devido a muito patrulhamento por parte de uma mentalidade protecionista disseminada, em raras oportunidades, conseguiam desvincular o regionalismo de seu caráter folclórico, de resgate cultural, de culto. (RAMIL, 2004)
  
Qual a saída? A busca de si mesmo, de sua identidade como artista que ao mesmo tempo o conecta e distingue dos compositores urbanos de sua geração e finalmente do próprio Brasil. A sua estética do frio – e aqui não estamos falando apenas do livro, mas de toda sua obra como compositor e escritor de ficção – constitui em uma tentativa de revisão da imagem estereotipada do gaúcho e do Brasil, país que compreende tantos espaços distintos, contudo permeados de pontos de intersecções. Nas palavras do compositor/escritor, a estética do frio, “reação a um estado de coisas em tudo paralisante (...), é uma viagem cujo objetivo é a própria viagem”.
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RAMIL, Vitor. A estética do frio. Conferência em Genebra. Porto Alegre: Satolep, 2004.
http://www.vitorramil.com.br/

O fim do começo

Ano passado, decidi criar um espaço que reunisse textos meus sobre (como diz o subtítulo...) "coisas pelas quais vale a pena viver". Mal comecei, e o blog já estava fadado às moscas, ainda que eu continuasse publicando palavras e ideias por aí. "Aí você me pergunta, mas então serve pra quê"? Não sei. Para antes que a música acabe.