quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Os cem anos do Eu

Tristezas de um quarto minguante[1]


(Publicado no caderno Correio das Artes, do Jornal A União, em maio de 2012)

                                                                                      Janaína G. Milanez [2]



É impossível ler o Eu de Augusto dos Anjos (ou qualquer texto literário) sem localizá-lo no espaço crítico em que foi forjado. A despeito do caráter dissonante de sua poesia, que a faz tão visceral e urgente de olhares, há aspectos que se tornaram unânimes no processo de compreensão da obra. Especialmente aqueles que tratam da autonomia estilística do poeta (de certa forma característica do período de transição em que viveu) e da rede complexa de relações estabelecida por um número limitado de poemas, mas com uma potência significadora original, geradora de motivos típicos para os quais sempre retornamos no exercício hermenêutico.
            No entanto, associar de imediato um poema aos leitmotivs e matrizes expressivas relacionados por sua fortuna crítica não comprometeria a singularidade característica da grande poesia, a qual se filia nosso poeta homenageado? Não é gratuito que a poesia de Augusto agrade a tantos e diferentes leitores há tanto tempo. Antes de perceber os grandes motivos, o leitor é capturado pela unidade da imagem e a coerência com que o poeta articula os elementos expressivos e alimenta os sentidos geradores. Claro que a dimensão existencial corrobora o caráter universal do que chamamos aqui de “grande poesia”. Contudo, como esta subsistiria sem a particularidade da imagem, linguagem detentora de liberdade essencial? Como o traço geral existiria sem o detalhe?
            O poema “Tristezas de um quarto minguante” é exemplar do trabalho do poeta com a estrutura metafórica. Faz parte daquele grupo de poemas de maior extensão concentrados do meio para o fim do Eu, excetuando-se “Monólogo de uma sombra”, que abre o livro, e “Cismas do destino”, inserido no meio dos sonetos. Desde o título, o conteúdo semântico desdobrado aponta imediatamente para a concretude da imagem: o “quarto” é ao mesmo tempo lua e dormitório que mínguam como o “eu”. Como em outros poemas, a “tristeza” atribuída ao eu lírico, figurada na imagem do “quarto”, equilibra a subjetividade. Além da polissemia, o poema chama a atenção pela visualidade, pela matéria narrativa e pelo conteúdo levemente metalinguístico, quando refere-se a outro(s) poema(s) do livro, implícita e explicitamente.
Composto de 26 quartetos decassílabos, o poema possui rimas e encadeamentos responsáveis por aproximações semânticas expressivas. Desenvolve-se em torno de um delicado fio narrativo, interrompido ora pela descrição sobre o “hemisfério lunar” e suas variações (como veremos adiante), ora pelos devaneios e angústias noturnos do “eu”. De toda forma, temos um eu lírico que observa a lua do quarto, durante sua passagem (o “quarto minguante” começa a meia-noite até o meio-dia do dia seguinte), em seguida deita-se, tentando dormir, enquanto “agoniza” até o amanhecer.
O fio narrativo, concentrado na passagem da lua pelo quarto e no deslocamento do eu lírico, propõe cinco movimentos, aos quais podemos associar uma noção de temporalidade curta, em detrimento da extensão do poema: 1. situação externa do eu (“Do observatório em que eu estou situado/ A lua magra, quando a noite cresce,/ Vista, através do vidro azul, parece/ Um paralelepípedo quebrado!”); 2. devaneios de teor erótico e fantasmagórico (“Aumentam-se-me então os grandes medos/ O hemisfério lunar se ergue e se abaixa/ Num desenvolvimento de borracha/ Variando à ação mecânica dos dedos// Vai-me crescendo a aberração do sonho./ Morde-me os nervos o desejo doudo/ De dissolver-me, de enterrar-me todo/ Naquele semicírculo medonho!”); 3. agonia noturna (“Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho./ Cinco lençóis balançam numa corda,/ Mas aquilo mortalhas me recorda,/ E o amontoamento dos lençóis desmancho.// [...]// Figuras espectrais de bocas tronchas/ Tornam-me o pesadelo duradouro.../ Choro e quero beber a água do choro/ Com as mãos dispostas à feição de conchas.”); 4. plenitude do amanhecer (“Abro a janela. Elevam-se fumaças/ Do engenho enorme. A luz fulge abundante/ E em vez do sepulcral Quarto-Minguante/ Vi que era o sol batendo nas vidraças.”); 5. situação interna do eu (“Entretanto, passei o dia inquieto”/ A ouvir, nestes bucólicos retiros,/ Toda a salva fatal de 21 tiros/ Que festejou os funerais de Hamleto!”).
A partir desses movimentos, observamos que a circularidade presente na construção rítmica e sintática do poema possui ecos na movimentação do “eu”, cuja situação se repete. O que implica dizer que aquilo que seu olho vê não é mais do que um reflexo do interior. A opção pelo poema longo, em vez do soneto, cria um contraponto importante com a dimensão temporal diminuída. O microcosmo espaço-temporal (quarto, uma noite de lua minguante) transforma-se em macrocosmo (eu, a escuridão existencial). Passagem da metáfora para a alegoria.   
Se a porta para o poema é a imagem polissêmica da fase da lua, ele segue com variantes que acrescentam camadas de significações, a partir da combinação de elementos visuais. No sentido de astro, as variações para “quarto minguante” são: lua, lua magra, vidro azul, paralelepípedo quebrado, cara do astro, metade de uma casca de ovo, hemisfério lunar, borracha, semicírculo medonho, luz do quarto, fases de um eclipse, triângulo escaleno do ladrilho, mãos dispostas à feição de conchas, lua morta. A iconicidade de algumas imagens (que retomam visualmente o desenho da lua minguante) e o seu teor negativo aproximam “Tristezas de um quarto minguante” de outro poema no Eu. O poema “Lupanar”, logo em sua primeira estrofe, condensa duas imagens icônicas da lua minguante: “Ah! Por que monstruosíssimo motivo/ prenderam para sempre, nesta rede,/ Dentro do ângulo diedro da parede,/ A alma do homem polígamo e lascivo?!”. A imagem polissêmica, mais uma vez sugerida a partir do título, (se lá tínhamos uma lua e um quarto que minguavam, aqui temos a condenação de um espaço que tanto pode referir-se a prostíbulo, quanto ao quarto do eu lírico, como espaço de subjetividade por natureza) tem implicações importantes para o universo simbólico do poeta. Em ensaio vigoroso sobre as linhas temático-formais do Eu, o professor Chico Viana lança o erotismo, no conjunto da obra, ao mesmo tempo como aspecto dissonante e vinculado à melancolia e à pulsão de morte no poeta. Dissonância no sentido de certa leveza estranha a Augusto. Em “Tristezas de um quarto minguante”, o sol e a natureza representam a trégua da agonia noturna, ainda que passageira: “Do engenho enorme. A luz fulge abundante/ E em vez do sepulcral Quarto-Minguante/ Vi que era o sol batendo nas vidraças”. No “Lupanar”, o quarto é “o afrodístico leito do hetairismo/ a antecâmara lúbrica do abismo/ em que é mister que o gênero humano entre”. Em “Gemidos da arte” (outro poema do Eu referido diretamente), reaparecem as imagens do “sol” e da natureza, mas subjugados à condição melancólica do eu lírico: (“Gosto do sol ignívomo e iracundo/ Como o réptil gosta quando se molha/ E na atra escuridão dos ares, olha/ Melancolicamente para o mundo!”).
 Teríamos mais a dizer sobre o poema, contudo, por hora, o que se pretende é realçar o investimento do poeta na imagem que sustenta sua poesia. Nesse caso, o efeito é obtido a partir da combinação de elementos inter/intratextuais, ligados à expressão de uma subjetividade que não abre mão da objetividade poética, de um olhar observador que transfigura o real ou o sonho em poesia, cuja matéria, afinal, é feita de palavra. De alguma metáfora recolhida antes da alegoria. Movimento que abarca o mundo e o eu.


Tristezas de um quarto minguante


Quarto Minguante! E, embora a lua o aclare,
Este Engenho Pau d'Arco é muito triste...
Nos engenhos da várzea não existe
Talvez um outro que se lhe equipare!

Do observatório em que eu estou situado
A lua magra, quando a noite cresce,
Vista, através do vidro azul, parece
Um paralelepípedo quebrado!

O sono esmaga o encéfalo do povo.
Tenho 300 quilos no epigastro...
Dói-me a cabeça. Agora a cara do astro
Lembra a metade de uma casca de ovo.

Diabo! Não ser mais tempo de milagre!
Para que esta opressão desapareça
Vou amarrar um pano na cabeça,
Molhar a minha fronte com vinagre.

Aumentam-se-me então os grandes medos.
O hemisfério lunar se ergue e se abaixa
Num desenvolvimento de borracha,
Variando à ação mecânica dos dedos!

Vai-me crescendo a aberração do sonho.
Morde-me os nervos o desejo doudo
De dissolver-me, de enterrar-me todo
Naquele semicírculo medonho!

Mas tudo isto é ilusão de minha parte!
Quem sabe se não é porque não saio
Desde que, 6a-feira, 3 de Maio,
Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!

A lâmpada a estirar línguas vermelhas
Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata,
Como um degenerado psicopata
Eis-me a contar o número das telhas!

— Uma, duas, três, quatro... E aos tombos, tonta
Sinto a cabeça e a conta perco; e, em suma,
A conta recomeço, em ânsias: — Uma...
Mas novamente eis-me a perder a conta!

Sucede a uma tontura outra tontura.
— Estarei morto?! E a esta pergunta estranha
Responde a Vida — aquela grande aranha
Que anda tecendo a minha desventura! —

A luz do quarto diminuindo o brilho
Segue todas as fases de um eclipse...
Começo a ver coisas de Apocalipse
No triângulo escaleno do ladrilho!


Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho.
Cinco lençóis balançam numa corda,
Mas aquilo mortalhas me recorda,
E o amontoamento dos lençóis desmancho.

Vêm-me à imaginação sonhos dementes.
Acho-me, por exemplo, numa festa...
Tomba uma torre sobre a minha testa,
Caem-me de uma só vez todos os dentes

Então dois ossos roídos me assombraram...
“— Por ventura haverá quem queira roer-nos?!
Os vermes já não querem mais comer-nos
E os formigueiros já nos desprezaram”.

Figuras espectrais de bocas tronchas
Tornam-me o pesadelo duradouro...
Choro e quero beber a água do choro
Com as mãos dispostas à feição de conchas.

Tal uma planta aquática submersa,
Antegozando as últimas delícias
Mergulho as mãos — vis raízes adventícias —
No algodão quente de um tapete persa.

Por muito tempo rolo no tapete.
Súbito me ergo. A lua é morta. Um frio
Cai sobre o meu estômago vazio
Como se fosse um copo de sorvete!

A alta frialdade me insensibiliza;
O suor me ensopa. Meu tormento é infindo...
Minha família ainda está dormindo
E eu não posso pedir outra camisa!

Abro a janela. Elevam-se fumaças
Do engenho enorme. A luz fulge abundante
E em vez do sepulcral Quarto-Minguante
Vi que era o sol batendo nas vidraças.

Pelos respiratórios tênues tubos
Dos poros vegetais, no ato da entrega
Do mato verde, a terra resfolega
Estrumada, feliz, cheia de adubos.

Côncavo, o céu, radiante e estriado, observa
A universal criação. Broncos e feios,
Vários reptis cortam os campos, cheios
Dos tenros tinhorões e da úmida erva.

Babujada por baixos beiços brutos,
No húmus feraz, herética, se ostenta
A monarquia da árvore opulenta
Que dá aos homens o óbolo dos frutos.

De mim diverso, rígido e de rastos
Com a solidez do tegumento sujo
Sulca, em diâmetro, o solo um caramujo
Naturalmente pelos mata-pastos.

Entretanto, passei o dia inquieto,
A ouvir, nestes bucólicos retiros,
Toda a salva fatal de 21 tiros
Que festejou os funerais de Hamleto!

Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas!
Quisera ser, numa última cobiça,
A fatia esponjosa de carniça
Que os corvos comem sobre as jurubebas!

Porque, longe do pão com que me nutres
Nesta hora, oh! Vida, em que a sofrer me exortas
Eu estaria como as bestas mortas
Pendurado no bico dos abutres!



[1] “Tristezas de um quarto minguante” é um dos poemas que compõe a antologia Os cem melhores poemas brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi, em 2001. O outro é o soneto “Versos íntimos”.
[2] Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Letras da UFPB.